Os riscos da comparação: como ela pode arruinar sua motivação e seus planos

Com a enxurrada de estímulos que recebemos constantemente, é normal olhar para si mesmo e achar que nunca somos bons o suficiente. Por todos os lados estão propagandas de pessoas felizes, bem-sucedidas e em excelente forma física. Isto faz com que o ser humano comum (a maioria de nós) se sinta como se estivesse faltando algo. SEMPRE. Isto acaba criando vários mecanismos de defesa, como rodeando-se e sentindo-se mais confortável com pessoas que consideramos, de certa maneira, de nível inferior. Isto acaba por dar-nos uma sensação de sucesso, porém esta comparação é apenas relativa.

Sempre que existe interação entre seres humanos existe a ideia de comparação. Seja com relação ao nível fitness, beleza ou status social. Algumas pessoas acabam se relacionando e estando mais confortáveis em meio a pessoas que consideram inferior, por se considerar o melhor em determinado aspecto. Isto é um comportamento humano no seu instinto mais primitivo. O cara mais forte que apenas se relaciona com pessoas mais fracas, para mostrar é o líder. Ou o cara que conseguiu uma condição financeira melhor e prefere se relacionar com pessoas de nível financeiro inferior. Ou até mesmo o homem que se sente intimidado ou ameaçado por se relacionar com mulheres mais bem-sucedidas financeiramente do que ele. Já conheci amigos que competiam e tinham verdadeira inveja das esposas pelo fato delas terem um salário maior que o deles. Não preciso falar que estes casamentos não duraram muito.

Isto acontece por que, por um lado existe um estímulo externo das diversas formas de influência (mídias sociais, propagandas, televisão, sociedade, grupo de amigos, família, etc.) mostrando ideais de sucesso e/ou beleza; por outro lado, a maioria busca um lugar onde possa estar mais confortável em ser ela mesmo e se sentir bem consigo mesmo, por conta disso acaba se envolvendo com pessoas que consideram no seu “nível” ou inferiores. Faz sentido?

Imagine o contrário, se você está constantemente rodeado de pessoas mais bem sucedidas que você, duas coisas irão acontecer: você vai comparar o nível de sucesso destas pessoas com o seu e constantemente sentir-se inferior ou, na melhor das hipóteses, vai ser estimulado pelo sucesso dessas pessoas a se tornar melhor, para melhorar seu nível e assim se aproximar destas pessoas.

Agora vamos pegar o caso em que você é estimulado a ser melhor por estas pessoas que estão ao seu redor. Nem sempre isso vai resultar em progresso real. Quando comparamos indivíduos (em qualquer esfera da vida – forma física, sucesso na carreira, etc.) estamos sempre sendo injustos e é algo que deveria ser evitado.

Mas por que?

Quando nos comparamos com alguém ou comparamos dois indivíduos estamos pegando um ponto no tempo. Não consideramos a jornada de cada um até chegar naquele ponto. Vou explicar melhor. Quando comparo meu progresso no treino com aquele cara que vi em um vídeo no Instagram, não estou considerando o tempo de prática, atividades anteriores que podem ser transferíveis para a calistenia, influência do peso corporal, altura, sexo, etc, etc, etc. Esta comparação também pode acontecer entre indivíduos dentro do seu círculo que começaram a atividade ao mesmo tempo.

Com relação ao tempo de prática não dá para se comparar com alguém que tem treinado há mais de uma década. Imagine sua jornada numa determinada atividade como um livro que você vem escrevendo conforme o tempo passa e você progride. É injusto comparar sua página 10 com a página 100 de alguém.

Mas e se duas pessoas tem o mesmo tempo de prática? Não seria justo compará-las?

Vamos para um exemplo prático.

Digamos que eu e meu parceiro de treino estamos treinando calistenia há 1 ano. Porém ele consegue fazer coisas que não consigo (muscle up, fronte lever, mais barras, etc). O que nos vêm a mente é: “estou fazendo algo errado. Por que ele consegue e eu não. Isto não é para mim. Não estou vendo progresso.”

No entanto, meu amigo é 8 anos mais jovem, 10 kg mais leve, 10 cm mais baixo, já praticou parkour e capoeira durante boa parte da infância. Quando me comparo com este meu amigo não levei em consideração todos estes fatores que influenciariam diretamente nossa performance no treino.

- Quanto mais leve, menor resistência

- Quanto menores os membros (braços e pernas), menor a alavanca nos movimentos

- Atividade onde se utiliza apenas peso corporal (como parkour e capoeira) são transferíveis para a calistenia

- Quanto mais jovem se inicia uma atividade maior a adaptação neuromuscular aos padrões de movimento.

Mesmo que tenhamos iniciado as atividades ao mesmo tempo, seria injusto me comparar com este meu amigo.

E isto acontece também com relação à sua carreira e ideal de sucesso. Você se compara com todo mundo ao seu redor constantemente. Certo nível de comparação é inevitável e até saudável, se você tiver consciência de quem você realmente é e do esforço que coloca no que faz. Quando nos comparamos com nossos pares (amigos de ensino médio, por exemplo), pode ser que tenhamos estudado na mesma escola, mas isso não vai determinar o nível de sucesso de cada um. Deve ser levado em consideração todos os fatores envolvendo cada um dos indivíduos: criação, nível socioeconômico, religião, sexo, personalidade, traumas de infância, até se veio de certo urbano ou rural. Todos estes e outros fatores irão influenciar nos resultados e um indivíduo nunca estará no exato patamar para que a comparação seja algo “justo”.

Vou dar um exemplo pessoal.

Eu e meu irmão. Tenho 31 e ele 29 anos de idade. Fomos criados na mesma casa, com acesso a praticamente as mesmas coisas. Ambos terminamos o ensino médio em escola pública. Frequentamos a mesma igreja por toda a adolescência. Tivemos o mesmo tratamento pelos nossos pais. Você pode dizer ambos temos a mesma possibilidade de conseguirmos o que quisermos. Isto não deixa de ser verdade, mas nosso ideal de sucesso e o quanto estamos dispostos a sacrificar para alcança-lo pode ser completamente diferente. Algum observador externo (tio, avô, familiar, amigo em comum) pode fazer a comparação e, a seu ver, julgar quem foi mais bem-sucedido na vida.

Meu irmão se formou em Economia na UFC, fez mestrado e doutorado na FGV Rio, e hoje trabalha como pesquisador em um departamento na Universidade de Chicago nos EUA. Eu fui policial militar por mais de 7 anos, me formei em Educação Física e abandonei tudo para vir estudar (pagando com minhas economias), trabalhar e tentar ficar no Canadá sem nenhuma garantia de que isso dará certo.

As escolhas dos indivíduos, seus objetivos específicos e suas preferencias pessoas devem entrar nesta equação. Mas não importa o quão aparentemente “idênticos” dois indivíduos sejam, qualquer comparação sempre vai ser injusta e trazer consequências negativas.

A maioria das mulheres brasileiras é de certa forma insatisfeita com a própria aparência, não importa o quão linda seja (o que pode evoluir para distúrbios de imagem e alimentares, ansiedade, depressão, etc.), justamente por conta da pressão social de que a mulher deve ser delicada e “linda” sempre. E o padrão de beleza deve obedecer à certos parâmetros socialmente estabelecidos, sem levar em consideração vários aspectos específicos de cada indivíduo.

O homem também sofre o peso deste ideal criado. Uma das razões do meu sucesso nas mídias sociais foi minha mentalidade e preparação mesmo antes de começar a compartilhar conhecimento sobre fitness. Tenho pectus, uma modificação no formato do tórax devido complicações respiratórias nos primeiros meses de vida, algo que é bastante comum na população brasileira. Qualquer pessoa conhece pelo menos algum homem que tem isto. Isto foi algo que me assombrou por boa parte da minha adolescência (período em que todas as inseguranças se potencializam), porem como isto nunca me impediu de fazer nenhuma atividade, aprendi a viver e até gostar disso. Antes de iniciar meu canal no YouTube Pinho Calistenia pensei: “a primeira coisa que vão falar sobre mim vai ser do meu peito, e com todos os trolls na internet alguém vai tentar ofender minha forma física falando sobre meu peito”. Então logo no primeiro vídeo mostrei o que poderia ser minha maior insegurança, tirando das mãos dos trolls qualquer arma que poderia ser usada contra mim. Hoje posso dizer que qualquer cosa que comentam sobre meu peito não me ofende nem um pouco.

A comparação pode ser um risco físico também. Se eu me comparar com outras pessoas mais avançadas do que eu, posso acabar pulado parte importante do processo de fortalecimento e acabar fazendo algo que meu corpo ainda não esteja preparado para realizar, o que pode incorrer em lesões que podem me incapacitar de praticar calistenia temporária ou até permanentemente. As minhas maiores inspirações na calistenia enfrentaram e ainda lidam com as consequências de lesões graves, que aconteceram mesmo depois de vários anos de prática. Lesões irão acontecer ao longo da sua jornada fitness, mas a maneira como você treinar e prepara seu corpo vai reduzir ou aumentar os riscos de acontecerem.

Como as mídias sociais são parte da minha profissão, não posso me dar ao luxo de colocar a carruagem à frente dos bois simplesmente por ego (para mostrar às pessoas que sou mais forte do que outros influenciadores fitness) e colocar em risco meu trabalho. Quando você segue alguém que posta constantemente nas mídias sociais e de repente para de postar, pode ter certeza que esta pessoa acabou se lesionando gravemente. O criador do WCO (World Calisthenics Organization) Kenneth Galarzo do instagram Progressive Calisthenics vêm se recuperando de uma série de lesões desde 2016 e ainda está voltando aos poucos. Ele foi o primeiro criador de uma certificação fitness voltada para calistenia e street workout, uma instituição que já realizou cursos e workshops ao redor do mundo (inclusive no Brasil), porém teve suas atividades temporariamente paradas por conta destas consecutivas lesões do seu CEO.

O mesmo aconteceu com Adam Raw (YouTube) da República Checa, Ranjit Bhanchu do Reino Unido, Dan Jeong conditioning da Coreia do Sul, Lazar e Dusan dos Barbrothers, e inúmeros outros influenciadores da calistenia.

E você provavelmente conhece aquele amigo também que evoluiu muito rápido na calistenia, porém teve que interromper as atividades bruscamente por conta de lesões e/ou quedas.

Eu gosto tanto do que faço que não quero de maneira nenhuma me expor à riscos desnecessários. Existe uma linha muito tênue entre estímulo insuficiente e demasiado. Se for insuficiente não vai ser capaz de gerar resultados ao longo do tempo, se for demais muito cedo vai acabar ocasionando lesões que poderão matar sua motivação para treino, podendo te incapacitar até permanentemente. Vai caber a você medir isto. Nada que vale a pena ter vem fácil e/ou rápido. Você deve ver progresso ao longo do tempo. E nem sempre vai ser possível ver progresso de semana a semana, mas você pode sempre se comparar com o mesmo período do ano passado e fazer esta comparação. Não com outros indivíduos. Mas com você mesmo em algum ponto no passado.

Um segredo que aprendi e faço questão de compartilhar com todos os que conheço é que quando você aceita quem você é e seu estado atual, e faz o melhor para se tornar quem você quer ser, você vai se apaixonar pela jornada.

Theodore Roosvelt sabiamente disse “Comparação é o ladrão do contentamento”. Não importa o quão bem-sucedido você seja, se você estiver constantemente se comparando com outras pessoas, nem todo o sucesso do mundo será suficiente. Nem a melhor forma física será o suficiente. Sempre faltará algo e nosso olho vai sempre estar focando no lado vazio do copo. Faça seu melhor, com o que você tem agora, e esteja disposto a aplicar trabalho duro por um longo período de tempo sem perder a motivação, que o resultado vai ser apenas consequência.

 

Jose Pinho Junior2 Comments