Espiritualidade e o Corpo

Eu sei que esse é um assunto que talvez não interesse a todos, mas não posso deixar de tocar neste assunto, já que a maioria dos brasileiros professam algum credo ou religião. E mesmo se você não acredita nada disso, você vai se beneficiar da leitura deste texto. Acredite.

Mas o que é que espiritualidade tem a ver com o corpo?

TUDO

Sem o corpo é impossível tem uma experiência terrestre. Ele é a manifestação física da mente/alma/espirito (como você quiser chamar). O cérebro comanda, mas o corpo que executa.

Desde os primórdios da civilização o ser humano acredita que uma força superior criou e exerce extrema influência em tudo o que existe, talvez por sua incapacidade em explicar todos os enigmas do mundo, que até hoje buscamos, mas cada resposta só nos leva a mais perguntas.

Na civilização grega o corpo exercia papel primordial. O corpo humano era cultuado e valorizado, e o homem era estimulado a ter um corpo forte e saudável. Não apenas para estar apto a guerrear, mas porque este porte atlético e esteticamente perfeito era sinônimo de vigor, saúde e virilidade.

O filósofo grego Sócrates, um dos fundadores da filosofia ocidental, cita em seus discursos a importância da atividade física e do cuidado com o corpo.

“Nenhum homem tem o direito de ser um amador em matéria de treinamento físico.”

“Que desgraça é para o homem envelhecer sem nunca ver a beleza e a força de que seu corpo é capaz”.

Hipócrates, atribuído com o pai da medicina, também adverte sobre os cuidados com o corpo.

“Se pudéssemos dar a cada indivíduo a quantidade certa de nutrição e exercício físico, não tão pouco nem demais, teríamos encontrado o caminho mais seguro para a saúde.”

Estes pensadores viviam em uma época em que a atividade física, a saúde preventiva (já que não haviam sido criados remédios) era uma preocupação central. Não é à toa que a palavra Calistenia vem dos termos gregos Kallos (beleza) e Thenos (força). Naquela época não havia academia de musculação. As pessoas se exercitavam com a única forma de resistência disponível a todo o tempo: seu próprio peso corporal.

Porém na Idade Média, alguns séculos mais tarde, com a institucionalização do cristianismo como a religião predominante no ocidente, o corpo passou a ser visto de maneira diferente. O corpo começou a ser visto como limitante. Acreditava-se que a “alma” tinha capacidade ilimitada, porém por conta das limitações físicas do corpo, e pelos impulsos “carnais” (muitas vezes taxados como pecado) a alma passava a ter sua capacidade limitada. O corpo era considerado a prisão da alma. A ele era atribuído tudo de ruim que assolasse o ser humano: doenças, dor, sentimentos ruins (como raiva, tristeza e inveja), etc.

A partir daí começou a tentativa de separar CORPO e MENTE, como sendo duas coisas distintas. Com o passar do tempo o corpo, bem como tudo relacionado a ele, passou a ser demonizado como a causa de todo o sofrimento humano. E mente e alma como sendo o que poderia purificar esse corpo. Dai em diante o foco do mundo moderno se concentrou na busca por conhecimento, “espiritualidade” através das instituições religiosas, e a atividade física associada a serviço árduo e braçal.

Isso chegou ao ponto de influenciar os padrões de beleza da época, onde o atraente era considerado um corpo bem acima do peso sem nenhum indício de tônus muscular. A nobreza, a família real, enfim, as pessoas consideradas mais bem sucedidas eram aquelas que tinham todo um sistema de serviços ao seu redor para poupá-los de qualquer esforço físico.

No Brasil colonial não era diferente, todo o trabalho físico era realizado por escravos. Qualquer forma de esforço físico era vista como degradante. E isso influenciou a sociedade brasileira até bem pouco tempo atrás.

Voltando aos dias atuais, o corpo passou a não ter nenhuma importância nas religiões predominantes no Brasil. Fala-se muito sobre a “pureza do corpo”, porém no sentido sexual. Você não vai ouvir em quase nenhuma igreja, mesquita, catedral, centro espírita, lideres religiosos falando que as doenças que mais matam no Brasil e no mundo serem relacionadas com estilo de vida, ou seja, essas doenças não são contagiosas, estão diretamente relacionadas com o que você come e seu nível de atividade física.

Fala-se muito em “fazer o ide”, mas para onde se pode ir se você morrer de um ataque cardíaco. Fala-se muito em servir e se dedicar as causas de uma entidade superior, mas sem um cuidado com a nutrição e atividade física não vai demorar muito até que uma doença crônica limite as atividades religiosas.

Se você acredita em Deus ou em uma força superior que criou seu corpo, não pensa que ele o fez para você ficar sentado e deitado o dia inteiro. Sua musculatura é capaz de movimentar seu corpo de maneiras ilimitadas. Seu corpo é uma máquina capaz de aprender e se adaptar a qualquer estímulo que você dê a ele. Se você apenas se sentar, andar, deitar, seu corpo vai sofrer pra se adaptar a qualquer outro estímulo diferente destes. Por isso você sente dor quando começa a treinar. Seu corpo esta saindo da zona de conforto, aprendendo algo novo. Da mesma maneira que você sofre quando vai estudar um conteúdo pela primeira vez, e com o passar do tempo, com dedicação e estudo, aquilo passa a se tornar mais fácil, da mesma maneira seu corpo aprende.

Não digo que a mente não seja importante, até porque acredito que o corpo é a mente e vice-versa. Um não existe sem o outro. Não se pode ter uma mente saudável sem um corpo saudável. Se alguém é genial e morre aos 50 anos de um ataque cardíaco, imagino o quanto poderia ser conquistado vivendo de maneira independente e produtiva até os 100. Isso é possível. E a solução não está em tratamentos de saúde caros, em suplementos que só quem é rico tem condições de obter, em métodos de treinamento revolucionários, não. O segredo da longevidade está em se alimentar de comida de verdade (leia-se não processada ou o menos possível) e atividade física constante.

Todos nós queremos viver mais, mas nem sempre viver mais é viver melhor. Um relatório federal do The Public Health Agency do Canadá indicou que o canadense gasta em média os últimos 10 anos de vida lidando com problemas sérios de saúde relacionados à alguma doença crônica. Principalmente hipertensão, AVC, problemas cardiovasculares, diabetes e câncer. A realidade no Brasil não é diferente. Quem não perdeu um familiar para uma destas doenças?

A boa noticia é que elas podem ser prevenidas. E para isso não é necessário ser rico. É preciso vencer a inércia e se mover. Quanto mais melhor. Ai muita gente fala sobre lesões relacionadas a atividade física. No entanto, a maioria das lesões são causadas por longos períodos de sedentarismo, associados a um inicio repentino na prática de uma atividade física.

Tempo não é desculpa. É apenas uma questão de prioridades. O seu Deus, ou a força superior que você acredita, não criou você com a capacidade de viver 120 anos para você estragar seu corpo a ponto de morrer ou ficar inutilizado aos 50. E se você não acredita em nada disso, você vai se beneficiar da prática de atividade física. Existe uma infinidade de atividades. Escolha a sua. E nas horas vagas, quando você viajar e não tiver acesso a nenhum equipamento, você pode sempre acessar o canal Pinho Calistenia e mandar aquele treino pesado pra fazer essa carcaça trabalhar e atingir seu potencial máximo.

Você não foi criado pra ser fraco, sentir dor, sofrer e morrer jovem. Você foi feito para ser forte, flexível, móvel, viver o máximo que puder de maneira independente e livre de dor. Se movimente, esse é o segredo.

 

Abraço e até a próxima.